A Augusta e Respeitável Loja Simbólica Amor e Caridade nº 313 constitui uma das mais antigas e relevantes instituições maçônicas do interior paulista. Fundada em 1º de novembro de 1872, sua trajetória confunde-se com a própria formação histórica de Ribeirão Preto, acompanhando o desenvolvimento político, social e econômico da região desde os primeiros anos da antiga Freguesia de São Sebastião do Ribeirão Preto.
Ao longo de mais de um século e meio de existência, a Loja atravessou períodos de expansão, interrupções, reerguimentos e transformações institucionais, preservando, entretanto, os princípios fundamentais da Fraternidade, da Beneficência, da Liberdade de Consciência e do aperfeiçoamento humano.
Reconhecida como a célula mater da Maçonaria ribeirão-pretana, a Amor e Caridade nº 313 exerceu papel decisivo na propagação da Maçonaria pelo interior paulista, influenciando diretamente o surgimento de diversas Oficinas maçônicas em São Paulo e Minas Gerais.
A história da Loja Amor e Caridade está profundamente ligada à formação do patrimônio religioso e territorial que deu origem ao município de Ribeirão Preto.
Em 2 de novembro de 1845, na antiga Fazenda das Palmeiras, foi erguida uma cruz de madeira para demarcar o patrimônio destinado à futura Capela de São Sebastião. A partir dessa doação inicial, diversos proprietários rurais ampliaram as terras destinadas ao patrimônio religioso, contribuindo para o surgimento do povoado.
Entre os principais doadores destacaram-se José Alves da Silva, Miguel Bezerra dos Reis, Antônio Bezerra Cavalcanti, Alexandre Antunes Maciel, Mateus José dos Reis, Luís Gonçalves Barbosa e Mariano Pedroso de Almeida.
Com o crescimento populacional e econômico da região, o povoado desenvolveu-se rapidamente. Em 19 de junho de 1856, foi oficialmente fundado o Povoado de São Sebastião do Ribeirão Preto. Posteriormente, em 2 de abril de 1870, elevou-se à categoria de Freguesia, ocasião em que foi inaugurada a Igreja Matriz de São Sebastião, localizada no atual entorno da Praça XV de Novembro.
O progresso continuou de forma acelerada e, em 12 de abril de 1871, a Freguesia foi elevada à categoria de Vila Provincial, desmembrando-se do município de São Simão. Surgia, assim, oficialmente, a Vila de Ribeirão Preto.
Foi nesse cenário de transformação política, econômica e social que surgiria a primeira Loja maçônica da região.
Durante os primeiros anos da recém-criada Vila de Ribeirão Preto, o Professor Bernardino de Almeida Gouvêa Prata — reconhecido como um dos grandes pioneiros da educação regional — idealizou a criação de uma Loja maçônica que reunisse homens comprometidos com os ideais do progresso, da instrução e da fraternidade.
Com o apoio dos maçons Capitão Francisco Barbosa Lima e Coronel Francisco Ferreira Freitas, ambos ligados à Loja Capitular Amor à Virtude, além da participação ativa de maçons de diversas localidades da região, foi fundada, em 1º de novembro de 1872, a Augusta e Respeitável Loja Simbólica Amor e Caridade nº 313.
A fundação ocorreu às 17 horas, na residência do Coronel Bernardo Alves Pereira, tornando-se um marco histórico para Ribeirão Preto e para a Maçonaria do interior paulista.
Em um período marcado por fortes tensões entre setores progressistas e conservadores da sociedade, a criação da Loja representou um importante avanço intelectual e social para a região, enfrentando resistência de setores ligados ao conservadorismo político e religioso da época. A Loja nasceu inicialmente vinculada ao Grande Oriente do Brasil do Vale dos Beneditinos.
Compuseram o quadro fundador da Loja Amor e Caridade nº 313 trinta e três francos-maçons de Ribeirão Preto e região:
A primeira sede da Loja funcionou na Rua do Comércio, nº 68, em imóvel pertencente ao Major Manoel Francisco de Carvalho, um dos fundadores da Oficina.
Desde seus primeiros anos, a Loja consolidou-se como importante centro de articulação intelectual e social da cidade, reunindo lideranças políticas, militares, juristas, educadores e comerciantes que contribuíram diretamente para o desenvolvimento regional.
Mais do que uma sociedade discreta, a Amor e Caridade tornou-se um verdadeiro núcleo de formação cívica, cultural e filantrópica, influenciando profundamente a organização social de Ribeirão Preto nas últimas décadas do século XIX.
Na década de 1860, a Maçonaria brasileira atravessou profundas divisões institucionais. Em decorrência de divergências internas no Grande Oriente do Brasil do Vale do Lavradio, surgiu, em 1863, o Grande Oriente do Brasil do Vale dos Beneditinos, liderado pelo Dr. Joaquim Saldanha Marinho.
Em 1872, buscou-se a reunificação da Maçonaria brasileira por meio da criação do Grande Oriente Unido do Brasil (GOUB), resultado da fusão entre os Grandes Orientes rivais. Entretanto, divergências políticas posteriores provocaram nova ruptura, levando à coexistência simultânea de diferentes potências maçônicas.
Após a extinção definitiva do Grande Oriente do Brasil do Vale dos Beneditinos, em 1874, a Loja Amor e Caridade filiou-se ao Grande Oriente Unido do Brasil, sendo reinstalada como Loja Capitular em 12 de dezembro daquele mesmo ano.
Na mesma ocasião, foram instalados em solo ribeirão-pretano seu Capítulo Rosa-Cruz e seu Conselho de Cavaleiros Kadosh, demonstrando a importância e o prestígio alcançados pela Oficina em poucos anos de existência.
Documentos históricos e boletins maçônicos do período registram oficialmente a filiação e as atividades da Loja no âmbito do GOUB:
1) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 3° Anno 1874 (N° 8 a 12 – Ago a Dez 1874)
Pág. 753 – A Loja Amor e Caridade filiou-se ao Grande Oriente Unido do Brazil no período desde fascículo.
Pág. 813 – “Última Hora – Secção Official – Actos do Gram-Mestre da Ordem” – “14 de Dezembro – Aprova a filiação das Lojas Amor e Caridade, ao oriente de Ribeirão Preto, Deus e Humanidade, ao oriente de Itajubá, e Virtude do Campo Largo, ao oriente de Campo Largo”.
2) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 4° Anno 1875 (N° 1 a 3 – Jan a Mar -1875)
Pág. 176 – Quadro alphabetico das officinas da jurisdicção. N° 0007 – Titulo distinctivo Amor e Caridade – Oriente Ribeirão Preto – Rito Escossez.
3) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 4° Anno 1875 (N° 4 a 8 – Abr a Ago -1875)
Pág. 631 – “Loja Amor e Caridade, ao oriente do Ribeirão Preto na província de São Paulo, em 06 de março. A officina regularizou a si própria e nessa ocasião foram proferidos discursos análogos ao acto por diversos irmãos. “
Pág. 312 – Quadro alphabetico das officinas da jurisdicção. N° 0007 – Titulo distinctivo Amor e Caridade – Oriente Ribeirão Preto – Rito Escossez.
Outros fatos noticiados nos boletins da maçonaria brasileira após a Loja ter-se filiado ao Grande Oriente Unido do Brasil:
1) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 4° Anno 1875
Pág. 312 – Colação de Grau: Ramiro Luiz de Oliveira Pimentel - Secreto Intimo".
2) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 5° Anno 1876 (N° 4)
Pág. 356 – “A Loja Amor e Caridade, ao oriente do Ribeirão Preto, na província de São Paulo, deu posse a sua administração em 04 de março.
3) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 5° Anno 1876 (N° 1 a 4 – Jan a Abril -1876)
Pag. 478 - "Posse: Venerável Mestre - Henrique Carlos da Costa Marques, Secretário: Ramiro Luiz de Oliveira Pimentel".
4) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 6° Anno 1877 (N° 1 a 3 – Jan a Março -1877)
Pág. 004 – Decreta: A sentença acima proferida é considerada definitiva e expulso da Ordem o ex obreiro Antônio Faustino de Figueiredo Brazil, grau 3, brasileiro, artista e de residência ignorada.
5) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 7° Anno 1878 (N° 10 - Outubro de 1878)
Pág. 32 – "Venerável Mestre: Dr. Joaquim Estanislau da Silva Gusmão, Secretário: Moyses Fernandes do Nascimento".
6) Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil – 8° Anno 1879 (N° 10 - Outubro de 1879)
Pág. 37 – "Venerável Mestre: Dr. Joaquim Estanislau da Silva Gusmão, Secretário: Moyses Fernandes do Nascimento".
A atuação da Loja Amor e Caridade foi decisiva para a expansão da Maçonaria pelo interior paulista e regiões vizinhas.
Diversos maçons ligados à Oficina participaram da fundação, regularização e fortalecimento de Lojas em cidades como Batatais, Taquaritinga, Araraquara, São Simão, Mococa, São Carlos, Serra Azul, Cajuru, Bebedouro, Franca, Jaboticabal, Sertãozinho, Monte Alto e outras localidades paulistas e mineiras.
Em novembro de 1885, divergências internas de natureza política levaram um grupo liderado por Ramiro Luiz de Oliveira Pimentel a desligar-se da Loja Amor e Caridade, fundando a Loja Estrella D’Oeste.
Vale destacar que, em novembro de 1885, um pequeno grupo de maçons, liderado por Ramiro Pimentel, desligou-se de sua Loja de origem por questões de natureza partidária e fundou a Loja Maçônica Estrella D’Oeste. Inicialmente, a nova Oficina funcionou de forma provisória na residência de Pimentel ate 1887.
A primeira década de atividades da ARLS Estrella D’Oeste foi marcada por intensas turbulências internas, com desavenças e conflitos entre seus membros. Nesse contexto, ocorreu a primeira cisão, que resultou na fundação das Lojas Macedo Soares e Integridade Pátria. Novas divisões sucederam-se ao longo dos anos, até o falecimento de Ramiro de Oliveira Pimentel, figura central na história da Oficina.
Apesar das divisões ocorridas ao longo dos anos, a influência histórica da Amor e Caridade permaneceu como elemento central da Maçonaria regional, sendo reconhecida como origem de diversas Oficinas maçônicas do interior brasileiro.
Em agosto de 1896, o Grande Oriente do Brasil realizou o primeiro grande recadastramento oficial das Lojas maçônicas sob sua jurisdição.
Nos registros oficiais publicados naquele período, a Loja aparece identificada como:
“Amor e Caridade — Ribeirão Preto — filiação em 12 de dezembro de 1874.”
Com as reorganizações administrativas posteriores do Grande Oriente do Brasil, a antiga numeração da Loja foi atualizada, passando oficialmente ao cadastro nº 313, identificação histórica preservada até os dias atuais.
Após sucessivas cisões ocorridas na Maçonaria brasileira durante o final do século XIX, a Loja Amor e Caridade suspendeu temporariamente suas atividades.
Entretanto, em dezembro de 1908, um grupo de maçons republicanos e progressistas promoveu o reerguimento de suas colunas, destacando-se nomes como Capitão José Etelvino da Silveira, Dr. João Caetano Álvares, Dr. Augusto Ribeiro de Loyolla, Felisberto Ferreira Gandra, Capitão Lino Engrácia e Capitão Anselmo Engrácia.
A nova sede foi instalada em imóvel pertencente ao Capitão José Etelvino, localizado na Rua Américo Brasiliense (entre as ruas São José e Garibaldi e a Florêncio de Abreu). Nesse período, a Loja trabalhou no Rito Escocês e filiou-se ao Grande Oriente Independente Paulista.
As atividades foram novamente interrompidas em 1918 em razão dos impactos provocados pela pandemia da Gripe Espanhola.
A memória da Loja Amor e Caridade jamais desapareceu da história de Ribeirão Preto.
Em 11 de março de 2011, um novo grupo de maçons promoveu mais uma vez o reerguimento de suas colunas, inicialmente como Loja de Pesquisa no Rito Escocês Retificado, juntamente com seu Capítulo Rosa-Cruz e Conselho de Cavaleiros Kadosh.
Em 1º de novembro de 2014, a Oficina passou oficialmente a trabalhar no Rito Adonhiramita, incorporando seus Graus Filosóficos ao Excelso Conselho da Maçonaria Adonhiramita. Posteriormente, em 4 de abril de 2019, a Loja recebeu nova Carta Constitutiva do Grande Oriente de São Paulo, tornando-se Loja iniciática.
Em junho de 2022, recebeu do Grande Oriente de São Paulo o título de “Cruz de Excelência Maçônica”, em reconhecimento à passagem de seu sesquicentenário.
No mesmo ano, buscando restabelecer sua regularidade junto à Maçonaria brasileira tradicional, a Loja desfiliou-se do Grande Oriente de São Paulo e federalizou-se ao Grande Oriente do Brasil, sendo reinstalada em 18 de novembro de 2022, ocasião em que recebeu nova Carta Constitutiva e novo cadastro federativo.
A Augusta e Respeitável Loja Simbólica Amor e Caridade nº 313 ocupa posição singular na história da Maçonaria paulista e brasileira.
Fundada ainda nos primeiros anos da emancipação de Ribeirão Preto, sua trajetória acompanhou o crescimento da cidade e contribuiu diretamente para o desenvolvimento social, intelectual e institucional da região.
Ao longo de sua existência, a Oficina consolidou-se como referência de tradição, fraternidade e compromisso com os valores universais da Maçonaria.
Constituída como associação civil de direito privado sem fins lucrativos, possui seus atos constitutivos registrados no 2º Cartório de Registro Civil de Pessoas Jurídicas da Comarca de Ribeirão Preto.
A Loja Amor e Caridade nº 313 preserva como lema histórico a expressão:
“Amour et Charité”
e mantém como princípios fundamentais:
Reconhecida como Benfeitora da Ordem e Progenitora da Maçonaria Ribeirão-pretana, a Amor e Caridade nº 313 permanece como uma das mais importantes expressões históricas da tradição maçônica no interior do Brasil. Por intermédio de sua atuação, o desenvolvimento social e econômico de Ribeirão Preto e região alcançou êxito e pujança.