Toda grande construção começa com uma ideia. Antes que as pedras encontrem seu lugar, é necessário conceber a obra, preparar os instrumentos, estabelecer fundamentos e compreender que nenhuma construção duradoura se sustenta sem equilíbrio, disciplina e perseverança.
A mesma reflexão pode ser aplicada à existência humana.
O homem nasce com possibilidades, mas é ao longo da vida que desenvolve seu caráter, aprimora sua inteligência, aprende a dominar suas paixões e descobre a dimensão de suas responsabilidades perante os outros. Não está pronto: encontra-se em permanente formação.
É nesse horizonte filosófico que podemos compreender Adonhiram, figura de grande relevância na tradição do Rito Adonhiramita. Para além de sua presença na narrativa maçônica, seu nome oferece uma oportunidade de reflexão sobre o ser humano como construtor de si mesmo, responsável por transformar suas potencialidades em virtudes e seus conhecimentos em ações úteis à humanidade.
Adonhiram representa, nessa interpretação simbólica, uma obra que não se encerra em um único momento: a construção permanente do templo interior.
A compreensão de Adonhiram exige distinguir as referências das Escrituras das interpretações desenvolvidas pela tradição maçônica ao longo do tempo.
No Antigo Testamento, Adoniram, também referido como Adorão em determinadas traduções, aparece associado a funções administrativas nos governos de Salomão e de outros reis de Israel. Entre as passagens relacionadas a essa figura estão 1 Reis 4:6 e 1 Reis 5:14, conforme a numeração das edições bíblicas.
A tradição maçônica atribuiu a Adonhiram um significado simbólico próprio, relacionando sua figura à construção do Templo de Salomão e aos ensinamentos filosóficos transmitidos pela Maçonaria.
Essa distinção é fundamental: uma referência bíblica não equivale, por si só, à comprovação histórica de todos os elementos de uma narrativa maçônica. A tradição iniciática emprega personagens, alegorias e imagens para transmitir ensinamentos que ultrapassam a descrição literal dos acontecimentos.
No Rito Adonhiramita, essa figura ocupa um lugar particular na identidade simbólica da tradição. Seu significado pode ser explorado não apenas pelo estudo de suas origens, mas também pela reflexão sobre aquilo que a construção representa na formação moral do indivíduo.
A pergunta deixa de ser exclusivamente quem foi Adonhiram e passa a incluir outra, ainda mais profunda: que tipo de ser humano estamos construindo por meio de nossas escolhas?
O templo exterior pode ser erguido com pedras, ferramentas, cálculos e trabalho coletivo. O templo interior, entretanto, exige outra espécie de esforço: consciência, autocrítica, disciplina e vontade de aperfeiçoamento.
Construir o próprio caráter significa reconhecer as imperfeições sem transformá-las em justificativas para a inércia. Significa compreender que a inteligência, quando não acompanhada pela ética, pode servir à vaidade; que o conhecimento, quando não orientado pela responsabilidade, pode converter-se em instrumento de dominação; e que a força, quando separada da sabedoria, pode produzir destruição em vez de progresso.
A construção moral exige, portanto, equilíbrio entre pensamento e ação.
O homem que se propõe a aperfeiçoar-se precisa examinar suas atitudes, reconhecer seus erros e aceitar que a verdadeira evolução não se mede apenas pelo que sabe, possui ou representa socialmente. Mede-se também pela maneira como trata os semelhantes, cumpre seus deveres, enfrenta as dificuldades e utiliza as oportunidades que a vida lhe oferece.
Sob essa perspectiva, Adonhiram simboliza o construtor que não se limita a levantar paredes: trabalha para que sua própria existência adquira fundamento, coerência e finalidade.
O templo interior não se conclui porque o ser humano nunca esgota suas possibilidades de aprender. Cada experiência pode revelar uma imperfeição a corrigir, uma virtude a desenvolver ou uma responsabilidade ainda não compreendida.
A grande obra é justamente essa: permanecer disposto a melhorar.
Uma das ideias mais expressivas da reflexão filosófica sobre Adonhiram é a diferença entre existir e construir-se.
Existir é uma condição da vida. Construir-se é uma tarefa consciente.
Ninguém se torna justo apenas por conhecer a definição de justiça. Ninguém se torna prudente somente por estudar a prudência. Ninguém se torna fraterno pela simples repetição da palavra fraternidade.
As virtudes precisam sair do domínio das ideias e alcançar o terreno das atitudes.
A honestidade manifesta-se nas decisões tomadas quando ninguém está observando. A tolerância revela-se na capacidade de conviver com diferenças legítimas. A coragem moral aparece quando é necessário defender o que é correto, mesmo diante de interesses contrários. A humildade demonstra-se quando alguém reconhece que pode aprender com outra pessoa, independentemente de sua posição, idade ou condição social.
É por meio dessas escolhas que o indivíduo transforma princípios abstratos em realidade concreta.
A construção humana também exige tempo. Assim como uma obra sólida não é realizada pela colocação apressada de pedras, o caráter não se aperfeiçoa por declarações ocasionais ou entusiasmos passageiros. Requer constância, revisão dos próprios atos e disposição para recomeçar.
O verdadeiro progresso não consiste em imaginar-se perfeito, mas em reconhecer a distância entre aquilo que se é e aquilo que se pode vir a ser.
A linguagem da construção oferece à Maçonaria um conjunto de imagens especialmente fecundo para a reflexão filosófica.
A pedra pode representar o próprio indivíduo, com suas qualidades, limitações e potencialidades. O trabalho de aperfeiçoamento simboliza o esforço de remover excessos, corrigir irregularidades e preparar-se para participar de uma obra maior.
O instrumento, nessa leitura, representa o conhecimento colocado a serviço de uma finalidade. Não basta possuir ferramentas: é necessário aprender a utilizá-las com discernimento.
A vontade, por sua vez, é aquilo que sustenta o trabalho quando o entusiasmo inicial desaparece. Sem perseverança, até os melhores propósitos permanecem apenas como intenções.
Essas imagens não devem ser compreendidas como fórmulas rígidas ou interpretações únicas. O simbolismo maçônico admite diferentes leituras, conforme a tradição, o contexto e a reflexão de cada estudioso. Seu valor filosófico está precisamente na capacidade de provocar perguntas e estimular o aperfeiçoamento da consciência.
A questão essencial é saber se estamos utilizando nossas capacidades para edificar ou destruir, para aproximar ou dividir, para esclarecer ou confundir.
A qualidade de uma construção não depende somente dos materiais empregados, mas também da inteligência, da responsabilidade e dos princípios que orientam o trabalho.
Uma construção duradoura exige harmonia entre concepção, sustentação e realização.
Essa imagem permite refletir sobre três princípios frequentemente associados ao universo simbólico maçônico: Sabedoria, Força e Beleza.
A Sabedoria representa a capacidade de compreender, avaliar e escolher com discernimento. Ela convida o indivíduo a superar o impulso imediato, examinar as consequências de seus atos e reconhecer os limites do próprio conhecimento.
A Força simboliza a firmeza necessária para transformar a compreensão em ação. É a perseverança que permite cumprir compromissos, enfrentar obstáculos e manter a integridade mesmo quando o caminho mais fácil parece ser o abandono dos princípios.
A Beleza pode ser compreendida como a harmonia que resulta da justa proporção entre pensamento, sentimento e conduta. Uma vida adquire beleza moral quando suas ações correspondem aos valores que afirma defender.
Isoladamente, esses princípios são insuficientes. A sabedoria sem ação pode permanecer estéril; a força sem discernimento pode tornar-se violência; e a busca da beleza sem fundamento ético pode reduzir-se à aparência.
Quando equilibrados, entretanto, oferecem uma referência para a construção de uma existência mais consciente e responsável.
O templo interior torna-se, assim, uma imagem da vida em que o pensamento orienta, a vontade sustenta e a conduta expressa aquilo que o indivíduo procura realizar.
A construção de si mesmo não deve ser confundida com uma busca egoísta de superioridade.
O aperfeiçoamento moral alcança seu sentido mais elevado quando ultrapassa os limites do indivíduo e se converte em benefício para a coletividade. Aquele que aprende a agir com justiça contribui para relações mais justas. Quem cultiva a tolerância ajuda a reduzir conflitos. Quem pratica a caridade transforma a solidariedade em auxílio concreto.
A humanidade não se torna melhor apenas porque acumula conhecimentos, desenvolve tecnologias ou amplia sua capacidade produtiva. O progresso material precisa ser acompanhado pelo amadurecimento ético, pela responsabilidade social e pelo respeito à dignidade humana.
Uma sociedade pode construir edifícios monumentais e, ainda assim, negligenciar os que vivem sem abrigo. Pode produzir riquezas e permitir que a miséria se perpetue.
Pode alcançar extraordinários avanços científicos e utilizar seus conhecimentos de maneira destrutiva.
Por isso, a verdadeira construção da humanidade depende também da qualidade moral das pessoas que a compõem e das instituições que elas edificam.
Não se trata de afirmar que indivíduos perfeitos produziriam automaticamente uma sociedade perfeita. A realidade social é complexa e depende de fatores históricos, econômicos, políticos e culturais. Trata-se de reconhecer que a responsabilidade individual integra, de maneira indispensável, qualquer projeto de transformação coletiva.
A fraternidade ganha sentido quando se manifesta no respeito, na cooperação e no compromisso com o bem comum. A caridade ultrapassa a intenção quando se converte em auxílio efetivo. A justiça deixa de ser uma palavra quando orienta decisões e comportamentos.
Nesse contexto, a construção do templo interior e a construção da humanidade são trabalhos relacionados: o indivíduo aperfeiçoa sua conduta e, por meio dela, participa da transformação do mundo em que vive.
A tradição maçônica oferece ao iniciado uma linguagem simbólica destinada a estimular o estudo, a reflexão e o aperfeiçoamento moral. Seu significado não se esgota na compreensão intelectual dos símbolos, pois exige que os ensinamentos sejam confrontados com a experiência cotidiana.
O maçom é chamado a examinar a si mesmo antes de julgar os outros, a procurar conhecimento antes de afirmar certezas e a reconhecer que o título ou o grau não substitui a virtude.
A verdadeira dignidade não reside na aparência exterior, mas na coerência entre princípios e atitudes.
O trabalho maçônico, quando compreendido em sua dimensão filosófica, exige responsabilidade dentro e fora do Templo. A fraternidade deve orientar as relações humanas; a tolerância deve permitir o diálogo; e o aperfeiçoamento deve manifestar-se no cumprimento dos deveres familiares, profissionais, sociais e cívicos.
Não basta falar de luz: é preciso procurar compreender. Não basta exaltar a fraternidade: é necessário praticá-la. Não basta admirar a sabedoria: é preciso permitir que ela corrija nossos julgamentos.
É nesse sentido que a figura de Adonhiram pode servir de inspiração ao maçom. O construtor simbólico recorda que nenhuma obra de valor dispensa planejamento, esforço e perseverança — e que a mais exigente das construções talvez seja aquela realizada silenciosamente no interior de cada pessoa.
Há uma diferença fundamental entre abandonar uma construção e reconhecer que ela ainda não terminou.
O indivíduo consciente de suas limitações não precisa considerar-se derrotado por ainda ter defeitos a corrigir. Ao contrário, o reconhecimento sincero das próprias imperfeições é o ponto de partida para uma mudança verdadeira.
O aperfeiçoamento não exige a ilusão de uma perfeição absoluta. Exige disposição para aprender, coragem para corrigir erros e humildade para compreender que sempre haverá algo a melhorar.
Cada dia oferece novas oportunidades para reconstruir atitudes, rever convicções e fortalecer virtudes. Pequenos gestos, quando praticados com constância, podem produzir resultados duradouros. Uma palavra respeitosa pode evitar um conflito; uma decisão honesta pode preservar a confiança; um gesto de solidariedade pode devolver esperança a quem atravessa dificuldades.
A obra humana é contínua porque a vida apresenta circunstâncias novas e exige respostas cada vez mais conscientes.
Adonhiram pode, assim, ser compreendido como o símbolo de uma humanidade em construção: capaz de aprender com o passado, agir no presente e assumir responsabilidade pelo futuro.
A reflexão sobre Adonhiram conduz a uma pergunta que ultrapassa os limites de qualquer rito ou tradição: o que estamos fazendo de nós mesmos e que contribuição deixaremos para aqueles que virão depois de nós?
O verdadeiro construtor não se preocupa apenas com a conclusão material da obra. Preocupa-se com seus fundamentos, com a segurança de sua estrutura e com a finalidade a que ela servirá.
Da mesma maneira, o ser humano não deve medir sua trajetória exclusivamente pelas conquistas exteriores. É necessário considerar a integridade de suas escolhas, a qualidade de suas relações e o benefício que suas ações proporcionam à coletividade.
Construir o templo interior significa trabalhar continuamente para que a inteligência seja acompanhada pela prudência, a força pela justiça, a liberdade pela responsabilidade e o conhecimento pela humildade.
Construir a humanidade significa compreender que nenhuma evolução individual alcança sua expressão mais elevada quando permanece indiferente ao sofrimento alheio.
A grande obra não está concluída. Ela prossegue em cada consciência que desperta, em cada erro reconhecido, em cada virtude cultivada e em cada gesto que transforma o amor em ação.
Adonhiram, interpretado como símbolo do construtor, recorda-nos que o ser humano não é apenas herdeiro do mundo que recebeu: é também responsável pelo mundo que ajuda a edificar.
E talvez essa seja uma das mais profundas lições da construção simbólica: a pedra que precisamos trabalhar com maior dedicação não está necessariamente diante de nós. Muitas vezes, ela somos nós mesmos.
Por: Pe. Manoel Gomes de Figueiredo
ARLS Amor e Caridade nº 313 — Ribeirão Preto, São Paulo
Artigo de reflexão filosófica sobre o simbolismo de Adonhiram, o aperfeiçoamento moral e a responsabilidade do maçom perante a humanidade.