Voltar para o Blog 05 de October de 2026

A Maçonaria e a Epopeia de Ribeirão Preto

A Maçonaria e a Epopeia de Ribeirão Preto

Sob o Signo da Terra Roxa e da Fraternidade: A Epopeia de Ribeirão Preto e os Obreiros da Amor e Caridade (1870–1911)

 

Nas dobras férteis do interior paulista, onde a terra roxa guardava o ouro verde do café, Ribeirão Preto ergueu-se e transformou-se, em poucas décadas, em um dos mais dinâmicos centros de progresso do interior paulista. Sua organização, seu crescimento e sua ascensão econômica e institucional não foram obra de um único homem ou de uma única instituição, mas resultado da ação de uma geração de homens que, movidos por ideais de trabalho, civismo, liberdade e solidariedade, participaram ativamente da construção de suas primeiras instituições. Entre eles estavam os obreiros da Augusta e Respeitável Loja Simbólica Amor e Caridade nº 313, fundada em 1º de novembro de 1872, a mais antiga Loja maçônica de Ribeirão Preto.

 

À frente dessa trajetória encontram-se figuras que marcaram profundamente a história local, como o Professor Bernardino de Almeida Gouvêa Prata  (educador, advogado, promotor público e fundador da Oficina) e homens que participaram diretamente da organização e do progresso do município, como os Coronéis Bernardo Alves Pereira e Antônio Alves Pereira. A eles se soma o Alferes Antônio Beraldo de Azevedo, cuja doação de uma área de 4 hectares e 84 ares de terras teve por finalidade ampliar o Patrimônio de São Sebastião do Ribeirão Preto e possibilitar a construção de um novo cemitério para a municipalidade.

 

Não se trata, portanto, apenas da história de uma Loja maçônica. Trata-se também da história dos homens que ajudaram a organizar e transformar Ribeirão Preto em suas primeiras décadas de existência. Em diferentes momentos, os obreiros da Amor e Caridade estiveram presentes na vida política, administrativa, educacional e social do município, participando das instituições que davam forma à nova cidade e acompanhando de perto sua transformação.

 

Enquanto os trilhos avançavam, o café enriquecia a região e Ribeirão Preto ampliava suas instituições, a Amor e Caridade também escrevia sua própria história, e, através de seus obreiros, deixava sua presença registrada na história da cidade. É nesse encontro entre a trajetória da Loja e a epopeia de Ribeirão Preto que se encontra uma das páginas mais significativas da história da Maçonaria no interior paulista.

 

Os Pilares da Terra e a Gênese Institucional (1870–1874)

 

O futuro de uma potência agrícola começou a desenhar-se quando o solo abençoado exigiu emancipação administrativa e a civilização exigiu luz, alicerçados na generosidade e no saber de seus fundadores:

 

  • 02 de Julho de 1870: Pela Lei n.º 51, o povoado foi elevado à categoria de freguesia, fincando as bases institucionais da futura metrópole.
  • 12 de Abril de 1871: A Lei n.º 67 elevou a localidade à categoria de vila, desmembrando-a definitivamente do município de São Simão.
  • 03 de Abril de 1873 (O Alvorecer da Educação): Por meio da Lei Provincial n.º 40, estabeleceu-se o início oficial da instrução pública na localidade através de duas divisões pioneiras: Cadeira Masculina -Teve como primeiro regente o ilustre obreiro e Professor Bernardino de Almeida Gouvêa Prata; Cadeira Feminina - Instituída pela mesma lei para atender às meninas da região, tendo sua esposa, Eufrasia Euphrazia Eugênia da Costa como professora.
  • 12 de Fevereiro de 1874: Perante a Câmara de São Simão, tomaram posse os primeiros líderes eleitos da nova terra, figuras centrais da Amor e Caridade: João Gonçalves dos Santos (consagrado o mais votado e primeiro presidente) e Venâncio José dos Reis, ao lado dos juízes de paz Antonio Caetano de Oliveira e Antonio Bernardino Veloso de Almeida.
  • 04 de Junho de 1874: O marco solene da Instalação da Vila (Município). Sob a presidência de João Gonçalves dos Santos, a primeira Câmara Municipal assumiu o poder, contando com a posse da maioria dos vereadores fundadores — entre eles os coronéis e patriarcas que doaram as terras comunais, como Bernardo Alves Pereira, além de Tomaz de Aquino Pereira. Eram os artífices da ordem, responsáveis por nomear e oficializar as primeiras ruas que cortariam o coração da vila.
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Os Maçons da ARLS Amor e Caridade na Vida Pública de Ribeirão Preto (1874–1911)

 

A presença dos obreiros da ARL Amor e Caridade nº 313 na administração pública, nas legislaturas e na formação institucional de Ribeirão Preto.

 

O crescimento vertiginoso de Ribeirão Preto exigiu não apenas o pulso firme na política, mas a cura e o amparo à população. Em 1876, o Dr. Joaquim Estanislau da Silva Gusmão entrou para a história como o primeiro médico a estabelecer clínica oficialmente em Ribeirão Preto. Homem de vasto saber e obreiro dedicado, o Dr. Joaquim Gusmão uniu a medicina de vanguarda à liderança política, presidindo legislaturas cruciais e garantindo que o progresso material caminhasse de mãos dadas com o bem-estar social.

 

Entre 1874 e o início do século XX, as cadeiras da Câmara Municipal de Ribeirão Preto foram ocupadas por irmãos da ARLS Amor e Caridade. As atas históricas da Câmara Municipal de Ribeirão Preto registram, ao longo das sucessivas legislaturas, a presença de diversos obreiros da ARLS Amor e Caridade nº 313 na administração e na vida pública do município. Sob a batuta de mentes brilhantes, a cidade despontou no cenário nacional:

 

  • 1ª Legislatura (13/07/1874 a 14/07/1877):
    • Vereadores: João Gonçalves dos Santos (presidente até 28/08/1874), Bernardo Alves Pereira (vice-presidente), Venâncio José dos Reis (presidente de 28/08/1874 a 1877), Thomaz de Aquino Pereira, Antônio Gonçalves Vallim, João Francisco de Oliveira, Luiz Herculano de Souza Junqueira.
    • Suplente que assumiu: Moizés Fernandes do Nascimento.
  • 2ª Legislatura (30/06/1877 a 27/12/1880):
    • Vereadores: Tenente Luiz Herculano de Souza Junqueira (presidente), Antônio Luiz Pimentel (vice-presidente), Antônio Bernardino Velloso de Almeida, Antônio Joaquim de Arantes, Antônio José Ferreira, José Venâncio Martins.
    • (Nota: Período marcado pelo Decreto 7064 de 31/10/1878, que transferiu a sede da Comarca de São Simão para Ribeirão Preto, e pela resistência à mudança temporária do nome para "Entre Rios" pela Lei provincial n.º 34 de 1879).
  • 3ª Legislatura (10/01/1881 a 19/10/1882):
    • Vereadores: Dr. Joaquim Estanislau da Silva Gusmão (presidente), Luiz Antônio da Cunha Junqueira, Matheus Gomes do Val Júnior.
    • Suplente que assumiu: Antônio José Ferreira.
    • (Nesta fase, em 1881, a Câmara decidiu construir o primeiro Mercado Municipal no antigo Largo da Matriz para centralizar o comércio impulsionado pelo café bourbon).
  • 4ª Legislatura (07/01/1883 a 30/12/1886):
    • Vereadores: Luiz Antônio da Cunha Junqueira (presidente), Antônio Bernardino Velloso (vice-presidente), Antônio Bento Ferreira Lopes, Cândido José da Silva, Moisés Fernandes do Nascimento.
    • Suplentes que assumiram: Dr. Joaquim Estanislau da Silva Gusmão, Jerônimo Vieira de Andrade.
    • (Marco histórico: Inauguração da estação provisória da Cia. Mogiana de Estrada de Ferro em 23/11/1883 na atual Rua Caramuru, seguida pela construção da estação definitiva em 1884 e pela inesquecível visita de Dom Pedro II e Dona Thereza Cristina em 24 e 25 de outubro de 1886).
  • 5ª Legislatura (07/01/1887 a 07/01/1890):
    • Vereadores: Dr. Joaquim Estanislau da Silva Gusmão (presidente), João Franco de Moraes Octávio (vice-presidente), Ramiro Pimentel (vice-presidente), Jerônimo Vieira de Andrade, Manuel da Cunha Diniz Junqueira (presidente).
    • Suplente que assumiu: Dr. Rodrigo Pereira Barreto.
    • (Foi nesta legislatura, em 03/08/1887, que o vereador e obreiro Rodrigo Pereira Barreto apresentou o histórico projeto de lei propondo a extinção da escravatura em Ribeirão Preto).
  • 6ª Legislatura (07/01/1890 a 28/08/1892):
    • Vereadores: Fernando Ferreira Leite (vice-presidente), Dr. Alexandre Brodowski.
    • Suplente que assumiu: Dr. Francisco Augusto César.
    • (Período de transição para a República em 1889 e elevação de Ribeirão Preto à categoria de cidade pela Lei 88 em 01/03/1889).
  • 7ª Legislatura (29/08/1892 a 1896):
    • Vereadores: Fernando Ferreira Leite (vice-presidente em 1893).
    • Suplentes que assumiram: Tibério Augusto de Senna, Dr. Francisco Augusto Cesar.
    • (Em 1892 foram criadas e instaladas a Comarca de Ribeirão Preto — Lei n.º 80, com o 1.º Juiz Manuel Aureliano de Gusmão e o promotor interino Eduardo Leite Ribeiro — e a inauguração do 1.º Grupo Escolar, atual Guimarães Junior).
  • 8ª Legislatura (1896 a 1899):
    • Vereadores: Fernando Ferreira Leite (presidente de 1896 a 1898), João Caetano Alves (vice-presidente).
    • Suplente que assumiu: Joaquim Estanislau da Silva Gusmão.
    • (Fase de fundação da Sociedade Beneficente de Ribeirão Preto / Santa Casa em 1896 e consolidação das entidades italianas).
  • 9ª Legislatura (1899 a 1902): Tenente-Coronel Fernando Ferreira Leite (presidente) e o suplente Dr. João Caetano Alves.
  • 10ª Legislatura (1902 a 1905): Augusto Ribeiro de Loyola.
  • 11ª Legislatura (1905 a 1908): Augusto Ribeiro de Loyola (prefeito interino em 1906).
  • 12ª Legislatura (1908 a 1911): Tenente-Coronel Antônio Furquim Pereira (vice-presidente em 1910).
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A Abolição, a República e a Soberania Urbana (1887–1889)

 

O final da década de 1880 testemunhou a derrocada de velhas estruturas e o nascimento de uma nova era, liderada por aqueles que traziam no peito os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade:

 

  • 03 de Agosto de 1887: Em um momento de profunda coragem cívica, o vereador e obreiro Rodrigo Pereira Barreto apresentou à Câmara Municipal um histórico projeto de lei propondo a extinção da escravatura em Ribeirão Preto, antecipando-se aos ventos nacionais da abolição.
  • 1888: O fim oficial da escravidão reestruturou as lavouras locais, acelerando a transição para o trabalho assalariado e a chegada maciça de imigrantes italianos, impulsionando a demografia de cerca de 5.552 habitantes em 1874 para mais de 10.000 moradores na década de 1880.
  • 01 de Março de 1889: Pela Lei 88, Ribeirão Preto foi finalmente elevada à categoria de cidade.
  • 15 de Novembro de 1889: A Proclamação da República alterou a dinâmica político-partidária local, repercutindo rapidamente na reestruturação e nomenclatura dos espaços públicos, como o tradicional Largo da Matriz.
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A Consolidação como Polo Regional e as Emancipações (1892–1899)

 

Entrando na última década do século XIX, a semente plantada pela Amor e Caridade frutificou em instituições de ensino, saúde e autonomia jurídica:

 

  • 25 de Agosto de 1892: Criação da Comarca de Ribeirão Preto (Lei n.º 80), desvinculando-a de vez de São Simão.
  • 10 de Outubro de 1892: Instalação oficial da Comarca (abrangendo a sede e os futuros municípios de Cravinhos, Serrana, Sertãozinho, Pontal e Dumont), tendo como 1.º Juiz Manuel Aureliano de Gusmão e como promotor interino Eduardo Leite Ribeiro.
  • 12 de Outubro de 1892: Inauguração do 1.º Grupo Escolar (atual Guimarães Junior).
  • 1895–1897: A solidariedade institucionalizada floresce com a fundação da Società Italiana di Mutuo Soccorso (inaugurada em 01/12/1887 / 1895) e da Sociedade Beneficente de Ribeirão Preto (atual Santa Casa, fundada em 1896).

 

O Raio Irradiador da Fraternidade: As Emancipações Regionais

 

O braço benfeitor e emancipador dos membros da Amor e Caridade não se conteve em Ribeirão Preto. Através de seus obreiros, a influência política e fraternal estendeu-se para fundar e emancipar as cidades irmãs do polo paulista:

 

  • Sertãozinho: Com a fundação oficial de sua Santa Casa em 05/09/1896 e emancipação pela Lei n.º 463 em 05/12/1896.
  • Cravinhos: Emancipada pela Lei n.º 511 em 22/07/1897.
  • Demais Municípios: Serrana, Pontal, Jardinópolis, Bebedouro, Araraquara, São José do Rio Preto e Taquaritinga.
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Guiados pelo estandarte da Augusta e Respeitável Loja Simbólica Amor e Caridade nº 313, fundada em 1º de novembro de 1872, os homens que a constituíram e dirigiram atravessaram os primeiros e decisivos capítulos da história de Ribeirão Preto. Sob a liderança de seus Veneráveis Mestres e com a orientação de homens de extraordinária projeção para seu tempo — como o Prof. Bernardino de Almeida Gouvêa Prata, fundador da Loja; os militares Maj. Jacintho José de Souza, Cel. Francisco Ferreira Freitas, Cel. Bernardo Alves Pereira e Cel. Antônio Alves Pereira; os juristas e homens públicos Dr. Antônio Caetano de Oliveira, Dr. Amâncio Gomes Ramalho, Dr. Francisco de Paula Machado, Dr. Henrique Carlos da Costa Marques e Dr. Augusto Ribeiro de Loyolla; e o médico Dr. Joaquim Estanislau da Silva Gusmão, entre tantos outros obreiros — a Amor e Caridade tornou-se parte indissociável da história institucional de Ribeirão Preto.

 

Mais do que uma Loja maçônica, a Amor e Caridade nº 313 foi, desde seus primeiros anos, um espaço de formação de homens que exerceram responsabilidades na vida pública, na administração municipal, na educação, na justiça, na medicina e no desenvolvimento social da cidade. Seus Veneráveis Mestres e seus obreiros não permaneceram alheios às transformações que moldaram Ribeirão Preto: estiveram entre os homens que ajudaram a organizar, administrar e construir as instituições do município em suas primeiras décadas de existência.

 

A história desses homens confunde-se, em muitos momentos, com a própria história da cidade. Nas Câmaras Municipais, na administração pública, nas instituições de ensino, na medicina, no direito e nas iniciativas que impulsionaram o progresso local, os obreiros da Amor e Caridade participaram de uma época em que Ribeirão Preto deixava de ser uma pequena povoação para se transformar em um dos mais importantes centros urbanos do interior paulista.

 

Assim, acompanhar a trajetória da Amor e Caridade nº 313 é também percorrer parte da própria epopeia de Ribeirão Preto. É reencontrar, nas atas, nos nomes dos seus Veneráveis Mestres e nos registros da vida pública, os homens que viveram aquela transformação e que, cada qual em seu campo de atuação, contribuíram para escrever a história de uma cidade que crescia sob o signo da terra roxa, do café, do trabalho, da fraternidade e do espírito empreendedor.

 

A memória da Amor e Caridade nº 313 permanece, portanto, inseparável da memória de Ribeirão Preto: uma Loja que atravessou gerações, formou lideranças e acompanhou a cidade desde os seus primeiros passos, preservando, há mais de um século e meio, a lembrança daqueles que fizeram da fraternidade não apenas um ideal, mas também um compromisso com a comunidade e com o futuro.

 

 

 

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